A faca Gaúcha

      Pampa, Rio Grande do Sul, guerra e pastoreio gaúcho, tipo característico da América do Sul.
      Peleia, faca, adaga e boloeadeiras.
      Dificilmente compreenderemos a história social do gaúcho sem o complemento de sua faca.
     Com a faca o gaúcho primitivo tirou as botas "Garrão de Potro" e nesta apresilhou as velhas esporas "Nazarenas" com rosetas ponteagudas, lembrando os espinhos da coroa de Cristo.
     Com a faca talhou o couro para retovar as três pedras das boleadeiras, indispensáveis, outrora, nas lidas campeiras e temíveis na guerra.
      E atou a faca na ponta de uma taquara, quando os clarins reclamaram as lanças crioulas nas estremaduras da Pátria.
       O gaúcho primitivo despresou a arma de fogo. A nobreza da luta estava no ferro branco.
       Com a faca o gaúcho agrediu e defendeu, peito a peito e cara a cara.
      Com a faca o gaúcho cortava a própria melena "aparava trança de china", tosava e cola a crina e aparava o casco do pingo nas vésperas de carreira.
       O guasca enamorado, com a faca apanhou a flor que ofereceu a sua amada.
      Beijando a cruz da adaga o guasca traído jurou vingança e o "aço que canta" corcoveava na bainha bordada de flores.
       Com a faca o gaúcho talhou a canga para os bois puxarem as estradas do Rio Grande.
      Carneadeira, chavasca, prateada, lingua de chimango, ferro branco, choto, xerenga ... . Seja qual for a denominação popular, a faca, o facão e a adaga estão incorporados à vida do homem sul riograndense.
      Enfiada na guaiaca, apertando os rins nas largas campereadas na cinta à esquerda ou à direita ou na cava do colete mesmo na cidade, o gaúcnho que se preza não dispensa a sua faca.
       A faca sangra a rês, coreia, longeia, carneia, prepara a costela para o assado e o couro para o laço, corta o churrasco e apara os tentos.
      É com a faca que o gaúcho corta o "amarelinho" para tragar as introspecções do cismarrento cigarro de palha.
Em noites de São João, a gauchinha trava a faca no tronco da bananeira para antecipar a sorte.
      Faca não se dá, faca se vende de presente pela moeda de menor valor, e o amigo paga para não perder a amizade.
       Com a faca o gaúcho brincou, peleou, dançou e trabalhou.
       Com a faca o gaúcho falquejou a própria história do Rio Grande.
       Dá infância da terra, a maturidade histórica, a faca prolongou o braço do gaúcho.

 "Cavalo de boa boca, mulher de bom gênio, faca de bom fio."  


Galuco Saraiva

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